terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Um livro para chamar de meu

por Kandy Saraiva

Li muitos livros que marcaram minha vida. Levei quase um mês para escolher um sobre o qual falar neste texto, respondendo ao gentil convite do Devorador de Livros.


“Aureliano, que naquele tempo não tinha mais de cinco anos, havia de recordar pelo resto da vida como o viu naquela tarde, sentado contra a claridade metálica e reverberante da janela, iluminando com a sua profunda voz de órgão os territórios mais escuros da imaginação (...).”



Cada livro marca a gente de uma forma. Então, talvez não seja justo escolher um em detrimento de muitos outros que passaram tantos momentos comigo. Resolvi, assim, avaliá-los todos por um critério mais restrito que apenas o fato de me terem marcado por motivos vários: com qual aprendi mais?

Não me refiro aqui ao aprendizado de informações, mas ao de habilidades. Não, não, não se trata de nenhum manual técnico sobre dança ou montagem de quebra-cabeças. Tampouco de algum livro de referência ou auto-ajuda. Trata-se mesmo de literatura.

Escolhi, assim, o primeiro livro que li depois de ter-me formado em Letras. “Oras”, você deve perguntar, “mas você leu tantos livros durante o curso, será que nenhum deles marcou tanto a ponto de merecer destaque?”. Todos, repito, marcam de alguma forma. Mas a habilidade que mais uso nos meus textos hoje em dia eu aprendi depois, quando pude finalmente escolher o que queria ler, em vez de ler o que os professores escolhiam para mim.

Cem anos de solidão. Foram 394 páginas que me ensinaram o que é a metáfora, o poder que ela tem, a arte que ela é, a magia que faz quando costura as palavras formando imagens no imaginário, assim, pleonasticamente de propósito. Foi com Gabriel García Márquez que aprendi a construir boas metáforas.

Li toda a saga de Aureliano Buendía em pouco mais de três horas, numa outra metáfora: devorei o livro, tal qual faz comumente o autor deste blog. Achei todo aquele realismo fantástico fantástico demais para ser livro. Era mesmo um absurdo. Absurdamente maravilhoso.

“Atravessou um ermo amarelo onde o eco repetia os pensamentos e a ansiedade provocava imagens premonitórias. Ao fim de semanas estéreis, chegou a uma cidade desconhecida onde todos os sinos tocavam a finados. Embora nunca os tivesse visto, nem ninguém os tivesse descrito, reconheceu imediatamente os muros carcomidos pelo sal dos ossos, as decrépitas varandas de madeiras destripadas pelos fungos, e pregado no portão e quase apagado pela chuva o cartãozinho mais triste do mundo: vendem-se coroas fúnebres.”

Àquela altura, devido justamente à minha formação, eu sabia o que era o maravilhoso na literatura, onde o poético fica mais à vontade só por encontrar a porta aberta. E deixei-me deslumbrar. Aceitei passivamente os mais de quatro anos em que choveu sem parar, encharcando a história. Achei de profundo bom gosto envolver uma personagem — chamada Mauricio Babilônia — com borboletas amarelas aonde quer que fosse, metáfora feliz interpretada ao gosto de cada leitor. Admirei a força matriarcal de Úrsula, a única personagem que permanece, em um enredo em que permanecer é só para os fortes.

“A embriaguez do poder começou a decompor-se em faixas de tédio” ou “Nada lhe chamava a atenção, salvo a música dos relógios, que de meia em meia hora procurava com os olhos assustados, como se esperasse encontrá-la em algum pedaço do ar.” Trechos assim fisgavam meu interesse, e fui pescada tantas e tantas vezes que me entristeci quando terminei a leitura. Derramar-se assim em algo tão profundo deveria mesmo ser ininterrupto.

Cem anos de solidão marcou-me não só pela linguagem poética, mas, principalmente, porque me fez perceber que a escolha vocabular é uma arma poderosa para quem quer escrever bem. Nenhum sentido é por acaso; nenhuma palavra é tratada como curinga. Todas estão onde estão porque é exatamente ali onde deveriam estar. E é a relação que estabelecem na ordem em que estão que multiplica os sentidos que têm.

Longe estou de construir metáforas como as do Nobel de Literatura, eu sei. Mas também sei que construo umas boas. Esforço-me para descamar as palavras e perceber-lhes todos os sentidos que têm, a ponto de conquistar certa liberdade para brincar com elas, como quem dança inocentemente em uma roda.

Com Gabriel García Márquez, por meio desse best-seller, aprendi que só a observação, aguçada e perspicaz, é capaz de esvaziar os clichês de um texto e elevá-lo ao que pouquíssimos alcançam, mas todos os que escrevem almejam: a originalidade. E é assim que eu construo metáforas: posso dizer que, em vez de escrever parágrafos de causar inveja, Márquez escreve os parágrafos mais procurados na feira; no lugar de descrever personagens de parar o trânsito, ele descreve mulheres que chovem beleza.

“Estas coisas, que tanto consternavam Úrsula, eram comuns naquele tempo. Macondo naufragava numa prosperidade de milagre.” Milagre é mesmo ficar indiferente a uma leitura assim.

Então, devido à intensa transformação que Cem anos de solidão imprimiu à minha linguagem, ao meu jeito de observar, de ser e de escrever, posso elegê-lo como livro que mais me marcou. E marcas são mesmo assim: a gente carrega para sempre, feito nome próprio.


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