quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

As veredas do Grande Sertão



Grande Sertão: Veredas tem uma história além de suas páginas, pra mim. Comecei a lê-lo no fim de 2008, e em janeiro de 2009 fiz uma viagem de uma semana e não quis levá-lo comigo, para não danificar. Quando voltei, não o terminei, mesmo estando pra lá da metade. Mas fiz bem. Pois sua leitura tem que ser algo fluído, contínuo, como o sempre ir do rio, assim podemos de verdade nos enamorar pelo seu enredo. Voltei a lê-lo neste ano, 2014, aproveitando meu grande tempo de férias. Agora sim, li direto, com no máximo um dia de intervalo. E o que digo é que terminei o livro com muitas lágrimas desde sua décima página final. Pra mim, hoje, fez muito mais sentido que há anos poderia fazer. Pois já conheci alguns lugares que estão no livro. Já cruzei o velho Chico e me imaginei na canoa de Riobaldo e Diadorim quando pequenos, também na sua travessia. Já comi algumas das comidas da história e principalmente já senti os jeitos da gente sertaneja, dos gerais, da caatinga e dos barrancos...

"Rio-Livre", desenho de Vinícius Rennó

Bem, o autor pede em nota no livro, para quem já o tiver lido ou for escrever sobre o mesmo, que não fale sobre a ordem do enredo, pra não estragar para outros leitores a grande surpresa que ele reserva em seu final. (Será no final?) Respeitando isso, o que vou escrever aqui é mais sobre o sentimento que o livro pode nos trazer. Pra mim é uma obra completa. Está entre meus livros preferidos. E não só livros, mas entre qualquer outra obra humana preferida, incluindo comida. Por isso mesmo o prazer desse livro se assemelha a um bom feijão tropeiro. É uma comida simples, sertaneja, mas é completa, tem tudo o que você precisa: poesia, natureza, amizade, liberdade, diversão, amor, filosofia, superação...

Lendo esse livro a gente se depara com uma poesia fina. Ela está nas palavras inventadas por Guimarães Rosa e na própria ordem com que ele as ajeita nas frases. À primeira vista a sua leitura é estranha. Dizem que é um filtro dos leitores mais persistentes: “É preciso ter coragem!”. Mas logo nos acostumamos e vamos tomando parte da singela poesia desta obra prima. Como diz Manoel de Barros, poesia não é pra se entender, é pra se sentir.

A natureza no livro, como diz um grande amigo meu, Joubert dos Santos, é uma personagem do enredo. Ela ganha vida pelo olhar de Riobaldo e interage com ele. Rosa faz comparações e analogias com a natureza para tudo. Assim, em momentos de grande prazer e relaxamento, os pássaros lindos desse sertão gerais tomam conta dos olhos, ouvidos e coração de Riobaldo e de nós, seus acompanhantes. Assim como nos momentos sombrios, são as corujas, por exemplo, que aparecem. Não só os pássaros, as grandiosas árvores, as veredas, os rios... Tudo faz parte dessas páginas maravilhosas. E no meio do sertão nos projetamos rapidamente, mesmo que você nunca tenha pisado em semelhantes terras. “O sertão está na gente!” É a sensação que prevalece.

Acho que nos apaixonamos por Riobaldo pelo nível de sinceridade com que ele conversa com a gente. Pra nós ele é um todo transparente. Mergulhamos na sua vereda de ódio, de amor, de dúvida. Questionamo-nos com ele sobre os valores da amizade, do bem e do mal, de Deus e do demo, da existência ou não do destino. Percebemos que a vida é imensa e sempre tem algum segredinho, alguma surpresa que necessitamos ainda de descobrir, por nós mesmos, com nossas pernas. Ele nos encoraja a isso:
“Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer.”

Vale dizer que tudo isso contado é requintado pelo grande humor de Guimarães Rosa. Há várias passagens divertidas. Jeitos de falar engraçados, causos e anedotas. Tem de tudo! É uma escrita alegre, de pazes com a vida. E por isso que faz tão bem. É muito divertido o conflito que Riobaldo tem com o demo, o Sisudo, o sempre sério, o Cujo, não sabendo se vendeu ou não a ele sua alma nas Veredas-mortas. Como se pode ter dúvida ou acreditar nisso? Ou então as repetidas vezes que Riobaldo define o viver: é ou não é muito perigoso. É? Não é? Ou com as diversas definições do demo e do sertão. É um eterno cutucar de espírito que Rosa propõe. Uma reflexão sobre a vida, sobre nossos valores, sobre os paradoxos e intolerâncias e sobre nosso humor, nossa gana de viver.

Enfim, deixo convite a conhecermos essa obra clássica da literatura brasileira. Sua história é simples, está no imaginário popular, mas o que vale é a travessia, não a chegada. Garanto que terão grandes surpresas e prazeres com esse livro tropeiro!
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito - por coragem. Será?”


Esta postagem foi adaptada de um texto gentilmente cedido pela autora. Leia o original no blogue Bobeira Onírica.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Revolta!

de André Caliman

(Nota: Eis aqui um motivo apropriado para sacudir a poeira desse blogue, inativo por tantos anos.)

Capa de Revolta!
Dia 20 de fevereiro de 2014. Em mais uma noite fria de Curitiba, houve o lançamento da publicação impressa da HQ brasileira mais aguardada nos últimos 14 meses. Aguardada por quem? Pelos seus leitores, claro. Aqueles que acompanharam seu desenvolvimento, desde 2012, pelo blogue mais revoltante que já se viu. Por ali, o autor publicou sua história, um capítulo por mês. Muitos caboclos puderam fazer seus comentários (alguns, um tanto acalorados) e influenciar, de alguma forma, na sua criação. Coisa de deixar o topete em pé!


"Revolta!" conta a história de um grupo de amigos (inspirados no circulo social do autor) que todas as noites se encontravam depois do trabalho para beber e discutir sobre suas indignações com a política deste país. Até que um incidente os tira da rotina e os coloca em movimento. "Era só uma questão de tempo. Era só uma questão de coragem." Assim começa a sua revolta.

Essa foi a primeira HQ autoral de André Caliman. Anteriormente, ele desenhou a série "E.L.F." para o mercado americano e a série "Sequestro em Três Buracos" para o mercado nacional. Por meio desses trabalhos pode-se ver a evolução de seu traço. No fim das contas, ele é um desenhista animal (no bom sentido do termo)!

Se você, como eu, não ficou sabendo da campanha de financiamento coletivo pelo Catarse, que aconteceu entre Agosto e Outubro de 2013, ou não pode contribuir na época, não se sinta um rato! Pois ainda pode comprar o seu exemplar pelo mesmo blogue revoltante. Acredite em mim, é uma história de cair o queixo!

REVOLTE-SE!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lembrai do 5 de Novembro

por Vinícius "Elfo" Rennó

Não sei se as leitoras e os leitores perceberam, mas o aniversário de dois anos do Devorador quase passou em branco. Digo "quase" pois, em virtude disso, decidi fazer proveito e mudar a data de sua comemoração para o 5 de novembro, hoje.


Por quê? Ora, para mim essa data é muito mais significativa do que a anterior e, por isso, muito mais fácil de ser lembrada. Isso se deve especialmente por causa de um certo romance gráfico, um dos primeiros a serem adaptados para o cinema. Refiro-me ao "V de Vingança" (V for Vendetta, no original), de Alan Moore.

Esta obra literária fala de uma possível Inglaterra sob um regime facista. Onde surge um terrorista (ou seria um herói?) mascarado, decidido a derrubar o governo e devolver a liberdade ao povo. Inspirado em Guy Fawkes, este personagem autodenominado "V" pretende explodir o Parlamento Inglês na mesma data que aquele tentou: 5 de novembro. Para provar que "o povo não deve temer seu governo, seu governo deve temer o povo". Mas no meio do seu caminho ele conhece a bela Evey.

Falar mais tiraria o prazer de quem ainda não leu o livro ou assistiu ao filme, que são ambos deliciosos como chocolate meio-amargo. Portanto termina assim o relato e fica aqui a indicação.



Voltando ao assunto inicial, este blogue já completou dois anos. Não parece muito, mas na blogosfera isso já alguma coisa, visto que a maioria das pessoas para de postar logo nos primeiros meses. Até mesmo este que vos escreve já passou por altos e baixos, ficando longos períodos sem escrever algumas vezes. Entretanto, continuo aqui. E sou grato a todos que me lêem e fazem desse pequeno exercício de escrita valer a pena (ou, no caso, valer o teclado).

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Lobo da Estepe

de Hermann Hesse

No início parece ser apenas uma história sobre um homem velho e triste. Com uma tristeza tão profunda que a leitura deste livro não seria recomendável para quem está em depressão (mas para os melancólicos como eu, é uma fina iguaria). Entretanto, se o leitor for perseverante e tiver força de vontade para prosseguir, perceberá que o livro não trata apenas disso.

Quando Herman Hesse escreveu essa história, ele tinha cinquenta anos. E ela tem haver com essa fase da vida, quando o futuro parece cada vez mais obscuro e o passado cada vez mais radiante. Porém, como alerta o próprio autor em uma nota que saiu nas edições posteriores a 1961, "este livro fala e trata também de outras coisas, além de Harri Haller e de seus problemas, (...) fala a propósito de um outro mundo mais elevado e indestrutível". E que, "embora retrate a enfermidade e a crise, não conduz à destruição e à morte, mas, ao contrário, à redenção."

Foi deste livro que Fenando Anitelli tirou o nome para o seu espetáculo multi-artítico, O Teatro Mágico. Este, para quem não conhece, é como se fosse um sarau ampliado, onde a música, a poesia e as artes circences coexistem. Vale a pena conferir. Mas atenção, assim como o livro sobre o qual escrevo, ele é "só para raros".

PS.: Confira mais a respeito do autor em Sidarta e Demian.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Demian

de Hermann Hesse

Creio que a melhor maneira de expressar o sabor do qual mais me recordo desse livro de Hermann Hesse é fazer uma citação do mesmo:
"Glorifica-se a Deus como o Pai de toda a vida, ao mesmo tempo em que se oculta e se silencia a vida sexual, fonte e substrato da própria vida, declarando-a pecado e obra do Demônio. Não faço a menor objeção a que se adore esse Deus Jeová. Mas creio que devemos adorar a santificar o mundo inteiro em sua plenitude total e não apenas essa metade oficial, artificialmente dissociada. Portanto, ao lado do culto de Deus devíamos celebrar o culto do Demônio. Isto seria certo. Ou mesmo criar um deus que integrasse em si também o demônio e diante do qual não tivéssemos que cerrar os olhos para não ver as coisas mais naturais do mundo."
Como podem perceber, basicamente todo este delicioso preparado alemão é uma crítica ao maniqueísmo irresponsável imposto pela sociedade judaico-cristã. Mas não é apenas isso o que atrai na obra. Sua história também é uma representação do que acontece com todos nós durante as nossas vidas, tão singulares e ao mesmo tempo tão parecidas. Além de dar uma lição de moral (sem ser moralista) consoante com nossos dias:
"Aquele que acha mais cômodo não pensar por si mesmo e ser seu próprio juiz acaba por submeter-se às proibições vigentes. (...) Mas há outros que sentem em si mesmos sua própria lei, e consideram proibidas certas coisas que os homens de bem perpetram a todo instante e permitem outras sobre as quais recai uma geral interdição. Cada qual tem que responder por si mesmo."

Este é o segundo romance que devoro deste autor. (O primeiro foi "Sidarta".) É incrível a tamanha espiritualidade de seus escritos, mesmo em uma história aparentemente mais mundana.

domingo, 26 de julho de 2009

Ensaio Sobre a Cegueira

de José de Sousa Saramago

A história se parece com um roteiro de cinema (tanto, que acabou virando um filme mesmo), mas o rítimo é de crônica joralística. Para mim, um graduando em Letras, a sua quase ausência de pontuação (com exeção das vírgulas) me faz torcer o nariz. Porém reconheço que isso torna a sua leitura mais frenética e empolgante. É possivel que o Ensaio Sobre a Cegueira seja muito mais do que seu título diz, pois fala muito mais do que aconteceria com a humanidade se ficassemos todos cegos, fala sobre o que há de mais mesquinho e podre e o que há de mais belo e perfeito dentro dos seres humanos. Como é frequênte nas obras de Saramago, a personagem principal é uma mulher. E é através desta que se nota toda a força e delicadeza de que as representantes do sexo feninino são capazes e como os homens estariam completamente perdidos sem elas, cegos ou não.

Li este livro quando estava fazendo a disciplina Literatura Portuguesa IV, com o professor Gerson Luiz Roani. Não era uma das obras que estavam sendo estudadas nem a que fora exigida para a avaliação. Mas foi o que li e apartir dessa leitura produzi o seguinte texto, entregue ao dito professor:
Sarama(r)go:

Um sujeito amargo.
Deveras saracástico.
Escreve o fantástico,
De forma crítica
E mítica.
É irônico e
Até mesmo cômico.
Talvez apenas um contista
Pessimista.
Mas é profundo e
De Portugal alçou o Mundo.


Quanto ao Memorial do Convento? Sinto em comunicar que não o li. O farei quando sua leitura não for uma obrigação; quando houver a oportunidade de dedicar o ócio e o prazer que esta obra merece. Ao invés disso li o Ensaio Sobre a Cegueira. Sei que este não é um dos livros do autor estudado que tocaram o professor, mas tocou a mim. E é isso que eu acho importante. Desculpe-me se isso lhe parecer irresponsável. Mas se buscar a origem latina da palavra responsabilidade, descobrirá que significa apenas a capacidade de dar resposta e, supõe-se, capacidade de dar respostas adequadas, próprias, originais e satisfatórias a estímulos que se recebe. Talvez esta não seja a resposta mais adequada à proposta de trabalho do professor, entretanto ela é própria e acredito que seja a mais original possível. E espero que seja satisfatória.
Como resultado, obtive a nota de 40% na disciplina e, portanto, fui reprovado. Não fiquei muito contente com isso. Entretanto também não lamentei. Pois não me preocupo com as notas que me dão, mas com o conhecimento que adquiro.

sábado, 16 de maio de 2009

Dom Quixote

de Miguel de Cervantes Saavedra

É preciso ser um pouco insano para melhor saborear esta obra magnífica. Como assim? Explico. Depois de ler muitos romances de cavalaria, o personagem-título acredita que é um cavaleiro andante, em época e lugar em que não existe tal coisa. Da mesma forma, os leitores da principal obra de Cervantes também precisam se deixar levar pela sua história. Caso contrário, não poderá extrair o seu sumo deliciosamente bem humorado e apreciar sua fragrancia de justiça e honra.

Os romances de cavalaria são o ponto de partida para a loucura de Dom Quixote e seu autor. O primeiro é dito louco por vivenciar essas histórias de donzelas e espadas, e o segundo por subvertê-las. Sim, subvertê-las. Pois ele escreveu esse livro justamente como uma forma de criticá-las. Mas não só isso, também as ressignificou através de sua obra.

Dizer mais é tirar a graça da leitura. Termino aqui com essa música da banda Os Mutantes, inspirada no Cavaleiro da Triste Figura:



A vida é um moinho
É um sonho o caminho
É do Sancho, o Quixote
Chupando chiclete
O Sancho tem chance
E a chance é o chicote
É o vento e a morte
Mascando o Quixote
Chicote no Sancho
Moinho sem vinho
Não corra me puxe
Meu vinho meu crush
Que triste caminho
Sem Sancho ou Quixote
Sua chance em chicote
Sua vida na morte
Vem devagar
Dia há de chegar
E a vida há de parar
Para o Sancho descer
E o Quixote sonhar
E os jornais todos a anunciar
Dulcinéia que vai se casar
Vê, vê que tudo mudou
Vê, o comércio fechou
E o menino morreu
Vê, vê que tudo passou
E a donzela casou
E o menino morreu
Dom Quixote cantar na TV
Vai cantar, vai subir

terça-feira, 24 de março de 2009

Sidarta

de Hermann Hesse

"Om: 'o presente, o passado e o futuro'. É, segundo o upanixade de Manduquia, o mundo inteiro, expressado por uma única sílaba, e ainda tudo quanto pode existir fora dos mencionados três tempos. (...)". Logo nesta primeira nota de rodapé, da versão brasileira do livro, já se encontra toda sua essência. Mas, como o próprio personagem-título ensina (ou, pelo menos, como EU aprendi de sua filosofia), não é possível obter a sabedoria através de doutrinas ou mestres, senão da própria experiência de vida. Portanto, não perca teu tempo, caro leitor ou querida leitora, lendo o que eu escrevi sobre esta magnífica obra de Herman Hesse e vá diretamente à fonte. Se bem que, segundo esta fonte, o tempo não existe; tudo é uma coisa só. Então não importa se lerás ou não o meu texto. Mas já que leste até aqui, não vejo motivo para desistir agora.

"Sidarta" não fala da história do Saquiamuni, o Buda, mas de um pesonagem diferente, que teve origem e início de vida muito parecidas com as do Iluminado. Este até aparece durante a narração, mas como personagem secundário, só para ter sua doutrina criticada respeitosamente pelo protagonista. Quando este se encontra pela última vez com seu amigo de infância, Govinda, diz-lhe, a respeito do Buda, que "o gesto da sua mão me importa mais do que as suas opiniões. Não é nos seus discursos e nas suas idéias que se me depara a sua grandeza, senão unicamente nos seus atos e na sua vida". Enfim, isso mostra que Hesse faz uma interpretação pessoal das correntes filosóficas orientais.

Creio que já disse o bastante -- ou mesmo nada -- a respeito deste livro que muito significou pra mim. Espero sinceramente que meus parcos e fiéis leitores sintam-se tão tocados quanto eu.

sábado, 14 de março de 2009

Maria-sem-vergonha

por Mônica Montone

Leila DinizDela ficou a imagem da menina que trepava em qualquer esquina com qualquer um simplesmente porque ela falava demais.

Quantas marias-sem-vergonha não se esfregam nos muros por aí, se fingindo de flor pequena e rósea, sem que ninguém saiba?

De sua boca não saíam apenas palavrões, mas também poemas que costumava recitar nos bares com um copo de chope nas mãos. Foi amiga de Manuel Bandeira, poeta que, aliás, a tirou do xilindró aos 15 anos de idade após uma prisão por atentado ao pudor por conta de um amasso na praia de Copacabana.

Achava as músicas de Edu Lobo tristes demais e, sobre os intelectuais, dizia: “São uns pentelhos, uns caras velhos. Intelectual não fode, fica só pensando, lendo”. Arrependimentos? Só o que deixou de fazer por neurose e medo.

Adorava crianças. Gostava de cachaça. Amava o mar. Escrevia em diários -hoje guardados com Marieta Severo: “Se a gente sabe das coisas, se vira, a realidade é um troço bacana”; “somando, subtraindo, dividindo, multiplicando, tanto faz. Me interessa o saldo”. Sonhava em ser mãe.

Não queria salvar o mundo, nem ser exemplo. Vivia o comportamento em época de engajamento. De seu affair não consumado com o rei Roberto Carlos, concluiu: “Se ele quiser, mesmo, que faça à moda antiga, toca a campainha do portão”.

Foi professora primária, vedete, atriz, jurada de programa de TV, dona de butique, esposa, amante, fugitiva da polícia, mãe.

Podia ter sido uma Maria qualquer se sua boca tivesse tramela, mas, como não tinha, foi o que não poderia deixar de ter sido: Leila Diniz.

Foi “todas as mulheres do mundo” em apenas 27 anos de existência e exuberância. Essa é a conclusão a que se chega ao ler sua biografia, escrita pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos.

Ao longo das 286 páginas do livro, somos convidados a um mergulho na vida do mito Leila Diniz - que levou o Pasquim à extraordinária marca de 117 mil exemplares vendidos na edição com sua entrevista; que fez com que o ex-marido Domingos Oliveira rodasse um filme somente para tentar reconquistá-la e que foi rejeitada pela Rede Globo, pelas feministas, pela turma do Cinema Novo, pelos comunistas e pela polícia de direita, que a via como uma ameaça aos bons costumes. Mas além disso, reencontramos na biografia uma Ipanema que o tempo não pode trazer de volta e conhecemos histórias da menina que andava de maria-chiquinha e que na infância conversava com uma montanha que apelidou de ursinho Cherri.

A narrativa jornalística e repleta de deliciosos depoimentos faz com nos aproximemos ainda mais dessa bela dona que, por ter optado pela alegria, acabou se tornando um anti-ácido diante de tanta hipocrisia.

Se toda mulher fosse, mesmo, meio Leila Diniz, certamente o mundo seria mais feliz.


Visite o blog da autora deste post: http://www.finaflormonicamontone.com/

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Enquanto não atualizamos aqui...

por Vinícius "Elfo" Rennó

Visitem o meu mais novo blogue:

http://ensaiosobreamudez.blogspot.com/

Lá encontrarão relatos de situações inusitadas de uma pessoa que decidiu parar de falar durante um ano. Pode não ser lá tão interessante, eu sei. Mas é no mínimo curioso, não acham?

domingo, 7 de dezembro de 2008

As portas da percepção

de Aldous Huxley

Livro de 1954, escrito por Aldous Huxley, onde o autor pormenoriza as suas experiências alucinatórias quando tomou mescalina. O título provém de uma citação de William Blake:
"If the doors of perception were cleansed everything would appear to man as it is, infinite."
"Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito."
Baseado nesta citação, Huxley assume que o cérebro humano filtra a realidade de modo a não permitir a passagem de todas as impressões e imagens que existem efectivamente. Se isso acontecesse, o processamento de tal quantidade de informação seria simplesmente insuportável. De acordo com esta visão das coisas, as drogas poderiam reduzir esse processo de filtragem, ou "abrir as portas da percepção", como é dito metaforicamente. Com o intuito de verificar esta teoria, Huxley começou a tomar mescalina e a descrever os seus pensamentos e sentimentos sob o efeito da droga. A sua principal impressão será a de que os objetos do nosso cotidiano perdem a sua funcionalidade, passando a existir "por si mesmos". O espaço e as dimensões tornam-se irrelevantes, parecendo que a percepção se alarga de uma forma espantosa e mesmo humilhante já que o ser humano se apercebe da sua incapacidade para fazer face a tantas impressões.

Mais de uma década depois de publicada, o título desta obra daria origem ao nome da banda The Doors, cuja música também foi inspirada por substâncias alucinógenas.
Um dos principais efeitos desses alucinógenos é a capacidade adquirida de se notar a conexão de coisas, pessoas ou acontecimentos aparentemente distantes. Se o leitor ou a leitora não estão entendendo o motivo ou o que inspirou este texto, talvez seja porque a suas portas não foram completamente abertas.

sábado, 8 de novembro de 2008

Explicações

Caros devoradores e devoradoras,

Tenho cá pra mim que devo desculpas e explicações a respeito da inatividade deste blogue. O senhor Tardin (Sleeping Dragon) e eu estudamos no curso de Letras da mesma universidade. E o final deste ano acadêmico está sendo muito corrido e atrabalhoado para ambos. Por isso a nossa ausência aqui. Mas logo o período de aulas termine, voltaremos a publicar nossos textos, demoradamente ruminados durante os últimos meses de silêncio.

Espero que sejam compreensíveis.

Cordialmente,

Vinícius "Elfo" Rennó

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A hora e a vez de Machado de Assis

por Vinícius "Elfo" Rennó

Às quatro horas da madrugada do vigésimo nono dia de setrembro de 1908, há exatamente um século, faleceu aquele que foi e ainda é considerado um dos maiores escritores brasileiros: Machado de Assis. Uns o glorificaram, outros o repudiaram e há aqueles ainda que sequer souberam de sua existência. Ou, pelo menos, não sabiam até este ano, também marcado pelo centenário de nascimento de outro dos grandes das letras nacionais: Guimarães Rosa. Muita coisa foi dita e desdita a respeito das obras de ambos de lá pra cá.

Posso estar enganado, mas mesmo em Minas Gerais, pareceu-me que houve uma tendência a se falar mais do carioca do que do mineiro. Então me pergunto o porquê de haver uma maior comoção pelo Bruxo do Cosme Velho. Seria por conta da linguagem usada pelo autor do "Grande Sertão: Veredas", considerada cheia de obstáculos quase intransponíveis para alguns leitores, pois não encontram ali a língua escrita consagrada? Ou seria, talvez, por causa do fato de o autor de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" ter vivido na então capital do país; um lugar de visibilidade? Não. Cada um usou a linguagem e o ambiente próprios de suas respectivas regiões e épocas para criarem suas histórias, que nem por isso deixam de ter o seu caráter universal. Então, por quê?

Creio que o principal motivo seria que a obra machadiana teve mais de um século para ser lida, relida, criticada, analisada e adaptada para outros gêneros e mídias, como, Cinema e Histórias em Quadrinhos. Ou seja, houve muita produção de mateiral a respeito. Não é que não tenha acontecido o mesmo à obra rosiana, contudo acho que ainda há muito o que se falar sobre esta e ainda não tivemos tempo suficiente para digerí-la por completo.

E, antes que haja qualquer briga, registro aqui meu recado aos dois imortais: Joaquim, não me leva a mal, gosto muito do sabor dos teus escritos - chego até mesmo a imitar-te na forma como preparo os meus -, porém eu prefiro a culinária mineira, com suas palavras bem cozidinhas. E, João, fica triste não, sô. Quem sabe não te darão maior atenção em 2067? quando for o TEU centenário de morte? O jeito é cada um esperar a sua hora e a sua vez.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Vivaldi e a Grande Peregrinação

por Bruno Tardin

Muitas pessoas acreditam que as coisas "ciclam". Assim como a lua tem seu ciclo de quatro etapas, a natureza tem um ciclo próprio, os animais, as plantas, o planeta, tudo, enfim. Mas isso é mais do que óbvio, vocês podem pensar... E é justamente por isso que decidi escrever algo sobre! Geralmente, o óbvio acaba se banalizando, e depois de certo tempo, nem é mais tão óbvio assim...
Como base para este texto, tomei por inspiração parte do grande legado que Mestre Vivaldi deixou-nos: uma de suas produções mais famosas e bem-apreciadas por muitos até hoje. Claro, refiro-me às Quatro Estações, que por questões de gosto pessoal e de conveniência tomei por minha fonte de inspiração. O gosto pessoal é uma resposta auto-explicativa. Já a conveniência, julgo no bom-senso e perícia de meus leitores para que descubram ao longo dessas linhas...
Haverei de seguir uma ordem não tão ortodoxa, com metáforas não tão nacionalistas. Isso porque, como muitos já sabem, os trópicos têm basicamente duas estações. Isso é refletido um pouco no nosso modo de agir. Somos um tanto extremistas em nossas ações e decisões, e somos pra lá de contraditórios em certos pontos do "ciclo". Não digo que todos fazemos isso, pois no próprio país temos regiões com as estações todas bem-definidas e mais ainda apreciadas. Mas este grupo é uma minoria, uma abençoada minoria que toma por constância o seu lema e faz da pessoalidade própria o seu estandarte. É impossível, eu sei, mudar o clima dos trópicos. E, a meu ver, não seria impossível (improvável, talvez, mas não impossível) mudar as pessoas.
Este foi um pequeno prelúdio, meus senhores. Os que me conhecem sabem que gosto de ir roendo-lhes as idéias pelas bordas, tal qual um rato desconfiado de que outro lhe cobiça o queijo (ou um daqueles matutos que sempre caricaturamos). Não hei de demorar-me mais e passarei ao que realmente interessa. Sem mais delongas... À primavera!
Para os que conhecem as obras (citadas acima) de Mestre Vivaldi, estes terão maior facilidade em receber a semente desta laudatória que redijo. A Primavera geralmente é taxada de estação do amor. Talvez não do amor, mas do nascimento. As flores surgem por todos os lados, pássaros festejam a beleza e o frescor da estação, a música flui em cada ponto colorido e resplandecente de vida. A primavera é uma estação que festeja ao sabor de uma valsa cheia de giros e rodopios, uma quebra de cintura e um aproximar-se de colos. Tudo é festa, a alegria é a ordem primeira. E no orvalho que beija cada flor a despertar, encontram-se vestígios de sonhos de paz e juras enamoradas.
Mas devemos lembrar também que outro ciclo existe dentro da própria primavera. O do dia – e da noite. E Mestre Vivaldi parece ter percebido este fenômeno com certa presteza e olhos de um sábio. As noites de primavera têm um quê de soluçar – sim, soluçar – tal qual a mulher que, vendo que chega a hora de separar-se de seu amor, agarra-lhe firme os braços e deseja que o tempo pare, e com isso venha a imortalidade daquela maravilhosa sensação... Mas, na primavera, este momento fúnebre e um tanto quanto melancólico, regido pelo soluçar do pobre rouxinol por um sonho perdido, dura pouco. Lá vem a manhã, com seus primeiros raios frescos e o orvalho que uma última vez beija suavemente as maçãs da terra. E toda a festa vai lentamente recomeçando, os ânimos voltam a se encher de merecido júbilo, e a cada minuto o baile da primavera recomeça seu próprio ciclo.
Nós também sofremos da mesma maleita que acomete a primavera. Nossa alma sofre de certa inconstância, oscilando entre um momento que beira o sublime e o leve chorar de uma criança que, tendo se perdido dos pais por um breve instante, crê piamente que aquele momento há de tornar-se eterno dentro de seu próprio sofrimento. Somos extremistas por natureza. Tal qual os discípulos de Jesus, com especial atenção para o bom e velho Pedro, que se num momento dizia que daria a vida por seu mestre, num súbito de paixão e devoção, no outro nega o alvo de suas afeições com certa frieza e distância. Somos facilmente iludidos pelo muito belo e rapidamente caímos nas sombras do muito lânguido. Uma hora nós estamos tirando mercadores do templo, na outra cochilamos enquanto Jesus chora suas emoções no que, sem sombra de dúvida, fora a maior e mais tocante melodia muda que este mundo já teve a audácia de presenciar.
Mas não temam, senhores: para aqueles que sabem onde olhar, o orvalho da noite e o canto da coruja são um mero piscar se comparadas à alegria vivida com a visita da aurora. Nossa alma, por mais que inconstante, almeja âncora segura que lhe garanta a felicidade. Os que confiam no Senhor são como as flores que, se encolhidas e temerosas durante a friagem da noite, revivem e reanimam ao primeiro saudar do sol.
Logo em seguida, o Verão: estação marcante, quente, sobejada com vapores noturnos e chuvas mais fortes. Quando o sol realmente mostra a vastidão de seu domínio e poderes sobre as criaturas que rastejam abaixo de si. Mas o verão não é um jugo, tampouco algo ruim. O verão é uma queima de fogos, é paixão ardente, é o "Eu te amo" pronunciado à donzela que passa na distância, é o olhar confiante para o horizonte que desejamos com nossas mãos e invejamos com nossa alma. É uma xícara de café quente na varanda, é um beijo roubado, é alegria febril, um lampejo de genialidade que passa pelos olhos e deixa um rastro de lágrimas de orgulho e surpresa.
Mas, como eu disse, o verão também traz suas chuvas. Suas noites, ao contrário da primavera, são tão fogosas e intensas quando as manhãs. Os calores que o sol lança sobre a terra duram enquanto a estação durar. Mas as chuvas têm um poder de neutralizá-lo, suprimi-lo e drenar os frutos de seu labor passionatto. Um momento gélido, um tremer de ossos, um olhar triste para as plúmbeas nuvens que se estendem ao infinito, roubando de nós o horizonte tão desejado. Nossa alma chora juntamente com as nuvens. Nosso espírito escurece tal qual o firmamento sobre nós. Nosso coração se silencia ante a sonata dos pingos de chuva.
O verão é uma estação de amadurecimento. Tanto por coisas boas, quanto pelas não-agradáveis, e estas são as que mais deixam marcas. Todo aprendizado requer sofrimento, todo sofrimento é um educador nato (com melhor didática do que a felicidade, quer queiram, quer não). E, para Mestre Vivaldi, as gotas de chuva acabam durando mais do que a escuridão primaveril, e são as arautas de tão áurea estação. "O verão é prenunciado por tempestades", ensina-nos sua música. Tal qual outro mestre, deveras anterior a este: Saulo, que depois das tempestades pela qual peregrinava, e depois de vislumbrar o sol de verão que era a presença de Deus em Jesus, o horizonte que o homem procurava com um misto de fúria e curiosidade. A cegueira de Saulo (que teria seu nome alterado para Paulo) foi o epílogo das tormentas de seu espírito. O sol raiou-lhe com tanta força que, por breves momentos, roubou-lhe a visão. E nunca mais deixou-o sob a chuva novamente. Breves nuvens eventualmente cobririam o sol, isso é fato. Mas ele sempre estaria lá, alumiando e guiando os passos vacilantes e desconfiados daquele que seria um dos mais renomados defensores e amantes (no sentido literal da palavra) do cristianismo.
Muitos não notam, mas o verão carrega uma nota de imperiosa urgência e subliminar angústia. Não por causa de suas tormentas, elas entristecem e obscurecem, mas não são tão discretas e sugestivas assim. O verão carrega consigo uma marca de funesta preocupação, tal qual nós próprios. Passou-se a primavera e suas delícias. Passa o verão e sua tempestuosa maré de emoções fortes e explosivas. E aproxima-se aquela que é mensageira de futuros temores e agruras.
Nós temos uma facilidade tremenda por nos deixarmos levar, como se estivéssemos bêbados da aura de verão. Somos tempestuosos e intensos, e geralmente nos rendemos facilmente às tempestades da vida. Mestre Vivaldi desconfiava deste lado enérgico da natureza humana, e não foi à toa que construiu seu "Verão" da maneira que o fez. Uma marcha rumo ao horizonte, uma paliçada de tormentas no caminho. E o hálito morno e assustadoramente próximo das estações que ainda restam... Se você entende o que eu digo, entende também a melodia a que me refiro. E com ela se identifica... O verão, senhores, termina numa nota arrastada e grave.
Ao contrário do que muitos pensam, o Outono é extremamente agitado. Ao menos, inicialmente. As folhas das árvores, coradas de tanto amar ao longo de duas estações, rendem-se ao seu lânguido descanso e traçam uma última valsa do galho de suas moradas até o chão que esfria lenta e mortalmente. As árvores despem de sua lustrosa roupagem e encarnam os camponeses do velho mundo: simples, desnudos e sem muito atrativo. Os pássaros voam para longe, e os que assim não agem preparam-se para em breve fazê-lo. Os frutos atravessam as últimas etapas de seu amadurecimento e esperam ansiosos por mão que os colha.
E então, o vento: o ressonar das almas que minguaram entre o verão e a atual estação, um prelúdio assustadoramente próximo de uma noite que será mais longa e marcante que o dia. Mesmo sendo interrompida, ela deixará presença. As noites do Outono de Mestre Vivaldi também eram mais longas e marcantes, recortadas pela valsa das folhas que caíam durante o dia. E o frio se aproximando, como as asas da morte fazem quando sentem um espírito que evanesce. O calor também evanesce, a beleza, tudo o mais que era belo e apetecível.
De acordo com o Dalai Lama, outro grande Mestre em sua própria arte (a arte de moldar espíritos de homens): "Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiúra, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente". Não poderia ter dito melhor, verbalizando em palavras o que Mestre Vivaldi dissera com acordes. O outono é uma estação de lenta degradação da beleza, da juventude, da superficialidade. Mas os frutos maturam. Tal qual certo jovem que também teve seu nome trocado no momento final de sua metamorfose: ao sair da pupa, após ter batalhado com seus próprios sonhos (e saído vitorioso, ainda que escoriado), Jacó mudou para Israel, nome que seria imortalizado futuramente.
E depois de muito tempo de longo e merecido modelamento, depois que suas folhas de ignomínia e esnobe superioridade caíram todas por terra, restaram somente os frutos de sabedoria e autocontrole, de reconciliação e amor verdadeiro. E assim ele transpôs o Vau de Jaboque acompanhado das últimas notas que futuramente Mestre Vivaldi comporia, uma última despedida das folhas rubras como sangue e ariscas como cervos numa campina. Um despedir-se destes raios mornos do sol e deste frescor agradável da brisa de outono, os últimos tons de febril complacência se despendem num evanescente crepúsculo.
Nós somos uma árvore no outono, a estação de maturamento. Somos constantemente trabalhados, constantemente desenvolvidos, até que chega o momento em que o excesso deve partir, e devemos provar dos frutos que de nós vieram. Devemos nos preparar, pois num dado momento do ciclo de nossas vidas (tal qual no ciclo das estações) muito do que julgávamos belo e prazeroso cairá por terra, e teremos somente consigo o que de nós brotou.
E então, o fim. As brancas lágrimas que o céu lança sobre nossos corações são a abertura desta ópera que, futuramente, mostrará ser tocante tragédia grega. A música de Mestre Vivaldi para esta estação parece bailar ao longo da neve que cai do céu. Tudo cai em sonolência inerte, tudo adormece. A neve cobre a tudo como gélida mortalha. Nossos espíritos são ofuscados com as brumas geladas, nossos corações entram em vagarosa sintonia com a aura moribunda que esta estação traz. Mas o Inverno não tem nada de mórbido, ou triste, pelo contrário. Mestre Vivaldi também assim pensava, pois sua melodia só começa vagarosa e triste, e evolui para algo que poderia ser comparado somente às crianças que brincam numa rua e, ao pôr-do-sol, adormecem embaladas por cobertas e amor de mãe.
Hayley Westenra canta a beleza e a real intenção do inverno em sua música "River of Dreams", inspirada e adaptada da melodia original de Mestre Vivaldi. Transcrevo aqui somente a tradução do trecho que notadamente resume aquilo que eu tento escrever, e que aquele que compôs minha musa inspiradora conta em acordes, feitos nos tempos de outrora:
"Rio dos sonhos, leve-me com você esta noite
Deitada em seus braços seguimos à deriva
Para ilhas da imaginação que brilham e fulguram
Sob as estrelas
Enquanto deslizamos através das trevas
Para o coração da noite".
O inverno é o tapete carmesim que nos prepara e purifica através da mortificação lenta e gradativa para o renascer que teremos quando, à medida que a neve descobre e revela nossa nova forma, reavivamos ante o chamado da Primavera.
Nós, enquanto filhos do Deus vivo, somos os peregrinos das quatro estações, perscrutadores do legado de Mestre Vivaldi. Somos uma profusão de primaveras e verões e outonos e invernos a rodopiar no caldeirão de nossas almas, uma aberração da natureza e uma obra única e tão bela e bem trabalhada que beira a plenitude do divino (o mesmo que nos forjou de seu amor e alegria). E temos como último inverno, um terrível e amargo inverno, as etapas finais de nossa vida nesta terra, esperando que a salvação do Deus Altíssimo venha despertar em nós uma primavera perfeita e infinita, onde não será necessária a tempestuosa fúria educadora do verão nem a metamorfose fria e destruidora do outono. O sangue que Cristo verteu no madeiro é a rosa que abre festiva na primavera, é o sol a brilhar no verão, e é o carmesim a derrubar as folhas do outono. E seu retorno triunfal há de ser precedido pela última lágrima gelada a ser velada por este mundo...
A marcha das estações... Ou melhor, a nossa marcha pelas estações de nossas vidas... Vivenciando, sorvendo, se deleitando, sofrendo, e aprendendo, sempre aprendendo e crescendo, sempre, como um carvalho que almeja roçar as alturas... Tendo por promessa os palácios das sendas celestiais, apoiados pelo legado do Messias e daqueles que foram tocados pelas mãos do Pai... E sempre valsando ao ritmo da orquestra de Mestre Vivaldi. Peregrinamos rumo à primavera eterna na qual nossas almas vão, enfim, conhecer por inteiro aquilo que só viam em parte. A maturação de nosso espírito através da foice da morte, que arranca as folhas secas de nosso corpo e purifica-nos para, puros e sem mácula, retornarmos aos campos floridos do jardim onde primavera, verão, outono e inverno tornam-se uma única estação... Que ecoa e ressona de acordo com o coração daquele que tudo criou. A estação da suprema graça de Deus.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Já faz um ano...

por Vinícius "Elfo" Rennó

Sim, leitoras e leitores, há exatamente um ano este blogue foi criado. De lá pra cá muita coisa mudou por aqui, mesmo que sutilmente. Acredite, houveram mudanças tanto na forma como conteúdo.

Antes de mais nada, gostaria de anuncia que, pouco antes do aniversário do Devorador, convidei um amigo para também ser um cozinheiro escritor aqui (que aceitou de bom grado e já começou marcando presença, visto o último post). De agora em diante, o autor de O Despertar de um Sonho me ajudará a falar sobre nossas degustações literárias, dentro e fora da academia. Por isso peço para que dêem as boas vindas ao Bruno Tardin.

Como podem ver, a principal mudança está na intenção de que este seja um blogue colaborativo. Quem estiver interessado em integrar à equipe ou simplesmente divulgar a sua impressão sobre algum livro, basta conversar conosco via email ou comentários e veremos o que fazer. Trata-se de uma nova fase, com novas possibilidades.

Pois que venha mais um ano!

domingo, 17 de agosto de 2008

Páprica

por Bruno Tardin

Na maioria das vezes, as metáforas mais esquisitas são as mais verdadeiras. Obviamente, não procuro, através deste ditado tão estranho quanto obscuro, escusar (ou até mesmo justificar) o que vou escrever. Não, caro leitor, não pretendo isso: só tomei a frase como um bom prólogo para esta pequena crônica.
Em se falando de metáforas, aqui vai a minha (esta pequena semente que planto nos corações dos meus leitores queridos, e que gostaria de vê-la frutificar algum dia): o mundo, meus caros, é uma grande e suntuosa cozinha.
Explico-me: todas as estruturas, recôncavos e membros da sociedade moderna como nós a conhecemos, todos tem um papel análogo a certos componentes básicos em uma cozinha. Existem aqueles que são panelas, talvez não tão atrativos à primeira vista, nem tão bem tratados, mas vitais para o processo de amadurecimento e preparação do alimento. Podes crer, leitor, que este gênero de indivíduo não seja tão importante assim: tente comer um belo pernil cru, ou uma boa porção de arroz, sem que este tenha passado pelo milagre da fervura em água, e você entenderá o que digo.
Existem também aqueles que estão situados na área de limpeza: palhas de aço, detergentes, uma boa barra de sabão (aquele feito com gordura e outros componentes menos célebres, todos depois de muito tempo de diálogo em uma panela fervente)… Um gênero tanto obscuro quanto necessário: ninguém gosta de limpar a sujeira dos outros (e uso aqui o sentido literal de “sujeira”), mas é um trabalho necessário e alguém tem de fazê-lo.
Poderia demorar-me muito mais em outros vários gêneros, mas deixo este trabalho saboroso para algum outro irmão de penas (ainda que esteja digitando este texto, mas tudo bem…). O gênero que pretendo retratar aqui é aquele que, usualmente, só vê a luz do dia durante a salada, e algumas vezes durante os preparativos das refeições: temperos.
Creio que não é necessário demorar-me para explicar a importância deste conjunto diminuto em estatura e gigantesco em importância; tente imaginar sua vida, toda a sua arrastada existência, leitor, sem uma pitadinha de sal. Não, não estou fazendo graça dos hipertensos: tenho é muita pena deles, pois uma das maiores dádivas lhes foi consequentemente negada (que me perdoem os médicos, mas isto é verdade).
Mas há ainda uma subdivisão no reino dos temperos, que deve ser explicada: os temperos vitais e as salsinhas. Tomem por “salsinha” a classificação de mestre Veríssimo, de que isto seria todo e qualquer componente presente na comida com efeito puramente ilustrativo: desde a literal salsinha presente em alguns pratos frios, até aquele brotinho de canela coroando os doces de festa.
Até mesmo as salsinhas têm sua utilidade: apesar de não serem temperos consideravelmente marcantes, são uma espécie de “merchandising” para os alimentos nos quais se encontram. Uma função não menos nobre que invejável, já que são elas que irão garantir uma boa propaganda do produto que vendem. Contudo, não é este o grupo que mais me agrada, e tampouco terá ele aqui futuras dissertações.
Os temperos vitais, como o próprio nome nos faz o favor de dizer, são de extrema importância: dão um toque extra ao sabor, uma coloração mais viva e divertida, às vezes… Enfim, enriquecem a própria alma do alimento. E, como o próprio Messias nos diz através das Santas Escrituras, nós devemos ser o sal da terra. Obviamente, ignoro qualquer sentido literalmente agrário que a citação possa ter.
Saindo do campo metafórico e passando ao ideal platônico (resumindo, trocando em miúdos tudo isso aí): nosso papel, querido leitor, não é somente ficarmos guardados num frasquinho de vidro temperando as saladas e porções de comida servidas vez ou outra. Se pudesse, faria uma adição às palavras de Jesus, mesmo que o termo por ele usado fosse simples o bastante para ser entendido à sua própria época: sejamos o sal, a pimenta-do-reino, a mostarda (a boa e velha mostarda, amiga de outras parábolas), a noz-moscada, enfim, sejamos o tempero da terra.
Devemos nos valer de nossas propriedades “temperísticas” e dar um pouco mais de sabor a este mundo cinza e sem graça no qual vivemos. Outra grande lição que podemos ministrar: paciência. Afinal, quem já ouviu falar de um grande cozinheiro que temperasse seus pratos visando algum recorde bizarro no Guiness? O bom tempero leva tempo e concentração para fazer efeito, leitor: por isso mesmo é que você, pequena páprica, deve ter paciência. Os frutos de seu labor só serão percebidos durante o processo de degustação. Mas tome cuidado: a nossa missão pode acabar sendo uma verdadeira espada de dois gumes.
Não é à toa que inventaram o adjetivo “temperança” (e naturalmente, com ele seu análogo, “intemperança”): equilibrar, colocar sobre limites. Afinal, em ausência, nosso trabalho é praticamente inútil (os hipertensos que o digam). Mas em excesso… Bom, basta imaginar o que seria aquela feijoada feita por uma cozinheira que pesou a mão na hora de salgar os componentes porcinos, ou então aquela avó ditosa que, por puro descuido, usa um pouco mais de pimenta do que o necessário em suas criações culinárias. Nós devemos ser temperados, se quisermos também temperar. Pode parecer fácil, mas tente ser “somente o necessário” num mundo materialista e tresloucadamente individualista como o nosso, e você vai ver que as coisas não são tão doces como você queria…
Falta-me espaço e sobram-me idéias, por isso hei de dar cabo desta pequena cria de meus miolos sem mais delongas: sejam o tempero da terra, meus amigos. Sejam moderados e equilibrados, mas tenham certeza de que essa humilde participação em nossa sociedade realmente faça a diferença. Dêem mais cor, dêem mais sabor, dêem um cheiro melhor nas pessoas cruas e sem tempero deste mundo (esta é também uma deixa para as pessoas-panelas, das quais falei anteriormente). Lembrem-se de que, por mais que seus esforços possam parecer inúteis a vocês próprios, sua utilidade não é para vocês mesmos, mas sim para os outros. E de que, se tudo o mais parecer inútil, nós estamos sendo usados por um grande, sábio e todo-poderoso cozinheiro, que sabe muito bem o que faz (afinal, não se pode ensinar um chef de renome como fazer uma omelete).
Confiem nestas mãos ditosas e experientes que nos usam, leitor, e tenha fé em sua própria capacidade: afinal, os temperos não são somente para enfeitar a mesa das saladas. Sejamos temperados e temperamo-nos uns aos outros, para que nosso eterno junta-panelas de domingo (que é a vida em sociedade) seja mais do que uma gororoba qualquer. Sejamos diferentes, e façamos a diferença. Pápricas de todo mundo, uni-vos!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Deuses Americanos

Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Escritor inglês atualmente morando nos Estados Unidos, Neil Gaiman é mundialmente conhecido como o autor da série de histórias em quadrinhos The Sandman. Mas além de HQs, ele também trabalha na criação de filmes, peças de teatro e vários romances de Ficção Científica e de Fantasia, que é o caso da obra sobre a qual falerei hoje.

Libertado da prisão, Shadow encontra o seu mundo virado de cabeça para baixo. Sua esposa foi morta, um misterioso estranho oferece-lhe um emprego. Mas este estranho, o Sr. Wednesday, que parece saber mais sobre Shadow do que é seria possível, e o adverte que uma tempestade está vindo -- uma batalha pela própria alma da América... e eles estão indo diretamente a seu caminho.

Uma dos livros mais falados do novo milenio, Deuses Americanos (American Gods, no original) é uma caleidoscópica viagem dentro da mitologia e através da paisagem americana, ao mesmo tempo familiar e totalmente estranha. É, simplesmente, uma obra-prima contemporânea. Devorei-a em uma semana, tamanho o seu sabor agradável e viciante.

Àquelas pessoas que não têm dinheiro para comprar este livro ou não o encontraram em uma biblioteca, eu digo para não se alarmarem, pois podem baixá-lo pela internet. Aviso que esta versão que encontrei foi traduzida para o português por fãs, portanto não é das melhores. Mas, tirando os erros tipográficos, é possível lê-la tranqüilamente.

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PS: Esqueci de dizer que o Neil Gaiman esteve há pouco mais de um mês no Brasil, participando da FLIP. Onde ele foi muito bem recebido e autografou os livros de muitos fãs. Para quem perdeu, segue um consolo no qual ele lê um conto seu:

domingo, 27 de julho de 2008

Estado Policial no futuro da Internet Brasileira?


Um excelente post de Luciana Monte, no blog Dia de Folga, explica em que pé está a Lei Azeredo para Cibercrimes.

Faço aqui uma pequena citação do texto dela:
"Boa parte do que está sendo dito pela web com referência ao projeto de lei de cibercrimes está ultrapassada. O texto do Abaixo-assinado pelo veto do projeto de lei de cibercrimes, aliás, está ultrapassado, já que suscita questões que não são mais problema, como o armazenamento temporário de informações no computador que é feito sempre que se navega na internet.

O que restou de realmente problemático?

  • Criminalização de condutas usuais e de boa-fé, como o envio de email para uma lista enorme e visível de contatos.

  • Criminalização de condutas sobre as quais o autor não tem controle, como a disseminação de códigos maliciosos.

  • Agravamento desses crimes pelo simples uso de nicknames (apelidos), prática habitual na web, e diga-se de passagem, na vida offline também.

  • Possibilidade de criminalização pela interrupção de serviços online ou de acesso à internet, matéria que deveria ser tratada no âmbito civil, não penal.

  • Possível inviabilização de redes sem fio (wi-fi) e comprometimento de outras redes, como as de cibercafés e lan houses.

  • Brecha para futuro regulamento "big brother".

Temos todo o direito de continuar reclamando do projeto de lei de cibercrimes. Devemos, mesmo, protestar, pressionando deputados para que rejeitem dispositivos que trarão graves prejuízos aos usuários de computador. Razões para a mobilização, existem.

Protestemos, no entanto, com embasamento e pelos motivos reais. O "ouvi dizer" está gerando muita confusão sobre o tema e desviando o foco dos defeitos concretos do projeto."

Julgo que, crime mesmo seria negar o acesso à informação, à arte e à cultura em geral que a Santa-Internet nos dá.

sábado, 17 de maio de 2008

Causo na Vila das Letras

por Vinícius Rennó

-Cumpadi, acabo di sabê dum causo qui conteceu ontem di noite.
-Uai, que houve? Diga logo duma vez, sô.
-Oia pro cê vê. Arrancaro as bola do Seu Alves!
-Sassinhora! Quem foi que castrô Alves?!
-Me dissero qui foi o português caolho, o tal do Seu Camões.
-Mas comé quisso foi aconticê?
-Parece que o homi pegô a propria muié, Dona Florbela, com o otro na cama. Então foi correno até a casa do vizinho pegar o machado emprestado. O resto ocê pode imaginá.
-Caramba!
-Agora o Seu Alves tá lá no hospitar.
-Coitado... Mas aqui, o vizinho sabia pra quê o português queria o machado?
-Ôh se sabia! Seu Assis tem muito apego à suas coisa, num sabe? Mas sabeno o motivo do português, Seu Assis entregô o machado na hora. Parece que ele num adimite essas desavergonhice de jeito nium.
-Eita! E Dona Florbela? quê se assucedeu cum ela?
-Nessas hora deve di tá pedindo perdão pro marido, que num qué vê ela nem pintada.
-Se fosse comigo, eu não perdoava.
-Nem eu. Mas sabe como é o português, se deixa levá pelas palavra doce da muié.
-Então, ocê acha qui eles vão acabá vortando junto? Povo doido, sô.
-Pois é.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O Noviço

de Luís Carlos Martins Pena

Ainda me lembro da primeira vez que tive de ler este livro, quando ainda estava no início do colegial (atual ensino médio). Foi tão forçoso que pequei desgosto pela obra. Um pouco mais tarde pude assistir à encenação desta peça teatral, o que mudou completamente minha opinião a respeito, tamanho o empenho dos atores. Agora que estou na universidade e tenho que lê-la novamente, a fim de estudar os começos do Romantismo no Brasil, não mais acho ruim. Pelo contrário, dá-me gosto relembrar das cenas de humor simples e críticas, em que as graças e desventuras da sociedade brasileira e de suas instituições foram tão bem retratadas.

Basicamente, esta é a história de Carlos, rapaz endiabrado, que é enviado a um convento por decisão de sua tia e tutora. Não tendo vocação para a vida religiosa, Carlos foge do convento e dedica-se a desmascarar o ambicioso Ambrósio, segundo marido de sua tia. Para saber mais, só lendo (ou ouvindo) "O Noviço" na BibVirt.

Quanto ao autor, Martins Pena é considerado o fundador da comédia de costumes no teatro brasileiro, um dos principais precursores do Romantismo no Brasil e um dos primeiros autores a retratar o processo de urbanização no século XIX. Suas obras, apesar de ficções, servem como fontes históricas dos costumes e da linguagem coloquial da época.